quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O bacudo

Nei Duclós comenta:
Canga, senti falta dos posts mas não reclamei. Sei o que é o cansaço de blogar. E também apostei que estavas preparando coisa boa, o que se confirmou nesse rápido vôo por tuas viagem. Sabor de fronteira em tudo o que o fronteirista fala. Especial de luxo.

Só uma coisa: lá em Uruguaiana não tem bacudo. Isso é esnobismo da elite oriental. O sujeito deveria ser de outras bandas. Conta a história direito, tchê.

Bom tua volta. Tem pouca coisa para ler na rede. Abs.

Pois é, fiz um relato da minha ausência no blog e várias pessoas me telefonaram, mandaram e-mails e comentaram a minha ausência. Uma delas foi o jornalista, escritor, poeta e gente muito boa Nei Duclós. O Nei é fronteiriço como eu, nasceu em Uruguaiana, e somos grandes amigos. Nunca nos encontramos pessoalmente mas o carinho com que comenta meus posts e a relação virtual que mantemos me dá muita alegria. A liga vem de um amigo em comum. O jornalista José Antonio Ribeiro, o famoso e saudoso Gaguinho. Com ele o Nei Duclós, mais uma cáfila de gaúchos, fundaram o Jornal de Santa Catarina em Blumenau.
Bem, o Nei acusou o golpe da minha ausência, o que me deixa lisonjeado, mas...atento como sempre, fez um reparo a uma palavra que usei para falar de um personagem da Uruguaiana. Bacudo. Para mim, bacudo sempre foi o grosso de campanha, o peão de estância com pouca instrução.
Mas aí o Nei me diz que em Uruguaiana não existe bacudo e que Isso é esnobismo da elite oriental. Oriental leia-se uruguaio. Me botou numa sinuca de bico. Fui pesquisar o termo bacudo e encontrei esta explicação de um cara de...Quaraí.

Sou de Quaraí e não nego. Cidade dos três quês. Quaraí, Querência Querida. Quaraí foge à regra em termos lingüísticos. Rio de Janeiro, com toda inspiração poética e musical, não enraizou nem uma metonímia, nem uma aliteração que se igualasse às suas iniciais. Quaraí tem esse predicado. O vivente que vai pra Quaraí sai de lá com um novo jeito de falar, uma transformação fonética incrível. É difícil alguém que more ou tenha crescido em Quaraí e que não pegue o sotaque grosso, de arrastar a língua nos dentes.

Sou de Quaraí, cresci e linguagem nativa com esta nunca vi. A ligação torna um ar poético, mas não foge nada à regra. Vivi em Quaraí há mais de vinte anos, e esta cidade tem dotes peculiares. As coisas lá acontecem, e tu espalhas pra outros lugares o ocorrido e ninguém entende o que é. A palavra bacudo, por exemplo. Bacudo é um termo gauchês, da mesma acepção que bagual. No entanto, alegretenses, uruguaianenes, quaisquer outros enses, muito dificilmente ouviram falar do termo bacudo. Bacudo vem de Quaraí. Porque lá nascem os dotes da lida campeira.

Nei, também descobri que tem um médico de Uruguaiana que fez um dicionário do uruguaianês. "O médico Lourival Araujo Gonçalves reúne há seis anos os vocábulos, agora publicados na forma de um dicionário na internet. Já são 1,2 mil palavras registradas. O médico explica que bacudo, por exemplo, viria de back wood e significa quem vem de fora, do mato. O termo é relacionado, hoje, a pessoas que vêm do campo, que não tiveram muito estudo e são um pouco avessas à cultura moderna.

Bah! Nei, to me sentindo um bacudo!


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Estou de volta


Queridos leitores,

Andei meio desaparecido por uns dias. Primeiro fiquei sem vontade de postar mesmo. Tava a "lesma lerda" de sempre. Enchi o saco e fiquei "na malandragem", como me disse o Paulo Dutra, reclamando da falta de postagem

- Canga, deixa de malandragem e faz esse blog pôrra!

Achei engraçado a série de cobranças que levei de leitores. Foi bom saber que tenho uns 7 leitores assíduos. Aqui estou de volta!

Nesse tempo que dei uma parada muita coisa aconteceu. O meu cronista preferido, Olsen Jr., foi censurado pelo Jornal A Notícia (RBS) onde mantinha ou ainda mantém uma coluna semanal. Saberemos se mantém nesta sexta-feira que é o dia que sai a coluna. A coluna censurada era uma carta para a ex-autêntica do MDB Anita Pires, hoje envolvida com esse pessoal que gosta de roubar, do PMDB de Luiz Henrique.
O Olsen insiste em ser do PMDB e acredita que o partido é coisa boa. Não é Olsen. Quem tá metido com essa gente tá metendo a mão! Vai por mim! (essa é boa).

Outro que foi censurado foi o Meira Jr. Mas já está de blog novo e metendo o cassete nos bandidos.
O ex-governador Paulo Afonso, aquele do golpe das Letras, lembram? Parece que levou mais uma condenação e está fora das próximas eleições.

Visita a Portinho
O outro motivo da minha ausência no blog foi que resolvi levar a minha mãe para a fronteira. Já estava há uns 3 meses fora de casa. Até no Rio Grande do Norte andou. Para quem está com 88 anos a vida tá regalada!
Na descida para Fronteira passei por Porto Alegre. Cada vez me apaixono mais pela cidade. Arborizada, prédios antigos bem conservados, excelentes bares e restaurantes e uma vida noturna de dar inveja a qualquer cidade.
Fiquei apenas uma tarde e uma noite cheia na cidade. Noite cheia inclui uma varredura completa pelos bares da Cidade Baixa e final de noite no Van Gog tomando a famosa sopa de capelletti do tradicional bar da esquina da República com a João Pessoa. Tudo isso junto com o meu sobrinho Rafa que sabe tudo de música e noite em Porto alegre.
Para completar, café da manhã em uma lanchonete na esquina da Ramiro Barcelos com a Jerônimo de Ornelas. Morei nessa esquina nos anos 70 e casualmente tenho dois filhos com esses nomes. Ramiro e Jerônimo. Bonito né?

Viagem sem fim
Almocei em um lugar maravilhoso. A Mini Churrascaria Via Trento, fica trás da Escola Militar bem em frente ao antigo Bar do Beto. Mesas (de madeira) na calçada, toalhas de tecido, espetinho de carne e salada honesta. Acompanha uma Polar! Bah tchê! Que coisa boa!
Bem, estava pronto para enfrentar os 600 km que separam a capital de Quaraí. Uma viagem interminável mas com direito ao famoso "completo" (filé de entrecot a cavalo, arroz e fritas) no restaurante Batovi na entrada de São Gabriel, metade do caminho.
toda a vez que viajo para a Fronteira lembro uma história que o pai contava.

"Certa feita um bacudo de Uruguaiana, que nunca havia viajado, pegou o trem para a Barra do Quaraí que fica há poucos quillômetros da cidade. Após 20 minutos de viagem o homem não se aguentou e lascou em alto em bom som:

- Mas é grande esse Brasil!

Cada vez parece que a Fronteira fica mais longe.

Virada em artigas
Bem, chegando em Quaraí foi o tempo de descarregar as malas e me mandar para Artigas, do outro lado, no Uruguai. Peguei o meu amigo Negro Muñata saindo para a fazenda com a mulher. Quando Ana, la señora, me viu sentiu o drama. Tava estragada a carne para o pastel!
Levamos meia botella de Johnny para colocar a conversa em dia. A viagem para campanha foi adiada ali. No ato!
Saímos, fomos até el Club Uruguay onde encontrei velhos amigos jogando carambola e ficamos, mais ou menos, outra meia garrafa de Johnnie. A coisa tava ficando boa. Na minha cabeça, é claro, pois a decadência da região não nos deixa muitas alternativas a não ser o bar do meu grande amigo Bocha Capô que há tempos batizei de Capô House. É o nosso morredouro. Ali se jogam cartas, se bebe e se conversa. Fora o chivito especial feito pelo Bocha que é o melhor do mundo.
Lá pelas 5 horas resolvi libera o meu amigo e fui bercear. Tava meio cansado. A idade já não nos permite mais certos exageros.

Boi magro
Bem, depois de tanta festa chegou a hora do trabalho. A tarde fui vender alguns bois pois a vida não está fácil em Florianópolis. Viver de free lancer não é fácil. Mais difícil ainda é vender boi na saída do inverno. Os bichos estão magros. Mas sempre rendem alguma coisa. Deu para repor a adega.
Na ida para o free shop ainda me envolvi em um acidente de trânsito. Um guri de 15 anos em uma motinho atropelou o carro e voou por cima caindo do outro lado da rua. Merda! Estava sem carteira de motorista e acidente no Uruguai é fogo! É uma complicação. Sorte que o guri não se machucou, muito, e não tinha carteira de habilitação.
O acidente me criou a chance de encontrar um velho amigo. O mecânico uruguaio Martinez "el tornillo". Era famoso como piloto de corrida de carros. Tinha um Sinca Tufão preparado e era o campeão das pistas de terra na Fronteira. Me safei do acidente e resolvi que estava na hora de voltar. Tava acontecendo muita coisa estranha.

Bem, estou de volta e parece que tem muita novidade por aqui.


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